Um pouco de literatura,
relacionada à Sinalização.
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Livreiro-Editor H. Garnier – Rio de Janeiro - editado em 1910 O texto está reproduzido exatamente como foi publicado. Taboletas
Foi um poeta que considerou as taboletas – os brazões da rua. As taboletas não eram para a sua visão apurada um encanto, uma faceirice, que a necessidade e o reclamo incrustaram na via publica; eram os escudos de uma complicada heraldica urbana, do armorial da democracia e do agudo arrivismo dos seculos. Desde que um homem realisa a sua obra – a terminação de uma epopéa ou a abertura de uma casa comercial – imediatamente o homem baptisa-a. No começo da vida, por instincto, guiado pelos deuses, a sua idéa foi logo a taboleta. Quem inventou a taboleta? Ninguem sabe. É o mesmo que perguntar quem ensinou a criança a gritar quando tem fome. Já no Oriente ellas existiam, já em Athenas, já em Roma, simples, modestas, mas sempre reclamistas. Depois, como era de prever, evoluiram: evoluiram de acordo com a evolução do homem, e hoje, que se fazem concursos de tabolelas e ha taboletas compostas por artistas celebres, hoje, na época em que o reclamo domina o asphalto, as taboletas são como reflexos de almas, são todo um tratado de psichologia urbana. Que desejamos todos nós? Aparecer, vender, ganhar. A doença tomou proporções tremendas, cresceu, alastrou-se infeccionou todos os meios, como um poder corrosivo e fatal. Os proprios doentes tambem a exploram numa furia convulsiva de contaminação. Reparai nos jornaes e nas revistas. Andam repletos de photogravuras e de nomes – nomes e caras, muitos nomes e muitas caras! A geração faz por conta propria a sua identificação anthropometrica para o futuro. Mas o curioso é vêr como a publicação desses nomes é pedida, é implorada nas salas das redações. Todos os pretextos são plausiveis, desde a festa a que se não foi até á molestia inconveniente de que foi operada com feliz exilo a esposa. O interessante é observar como se almeja um retrato nas folhas, desde as escuras alamedas do jardim do crime ate ás garden-parties de caridade, desde os criminosos ás almas angelicas que só pensam no bem. Aparecer! Aparecer! E na rua, que se vê? O senhor do mundo, o reclamo. Em cada praça onde demoramos os nossos passos, nas janellas do alto dos telhados, em mudos jogos de luz, os cinematographos e as lanternas magicas gritam através do écran de um pano qualquer o reclamo do melhor alfaiate, do melhor livreiro, do melhor revólver. Basta levantar a cabeça. As taboletas contam a nossa vida. E nessa babel de apelos á atenção, resaltam, chocam, vivem estranhamente os reclamos, extravagantes, as taboletas disparatadas. Quantas haverá no Rio? Mil, duas mil, que nos fazem rir. Vai um homem num bonde e vê de repente, encimando duas portas em grossas letras esta palavras: Armazem Theoria. Theoria de que, senhor Deus? Ha um outro tão bizarro quanto este: Casa Tamoyo, Grande Armazem de liquidos comestíveis e miudezas. Como saber que liquidos serão esses comestíveis, de que a falta de uma virgula fez um assombro? Faltou a esse pintor o esmero da padaria do mesmo nome que fez a sua taboleta em letras de antigo missal para mostrar como se esmera, ou talvez o descaro deste outro: o maduro cura infallivelmente todas as moléstias nervosas... Mas as taboletas extravagantes são as do pequeno comercio, sem a influencia de Paris, a importação directa e caixeiros elegantes de lenço no punho: as vendas, esta creação nacional, os botequins baratos, os açougues, os bazares, as hospedarias... Na rua do Cattete ha uma venda que se intitula O Leão na Gruta. Por que? Que tem a batata com o leão que nem ao menos é conhecido de Daniel? Defronte dessa venda ha, entretanto, um café que é apenas Café de Ambos Mundos. E si não vos bastar um café tão completo, ahi temos um mais modesto, na rua da Saude o Café B. T. Q. E sabem que vem a ser o B.T.Q., segundo o proprietario? Botequim pelas iniciaes! Essa nevrose das abreviações não atacou felizmente o dono do casa de pasto da rua de S. Christovão, que encheu a parede com as seguintes palavras: Restaurant dos Dois Irmãos Unidos Por... Unidos por... Pelo que? Pelo amor, pelo odio, pela victoria? Não! Unidos Portuguezes. Apenas faltou a parede e ficou só o Por, – para attestar que havia boa vontade. A questão, ás vezes, é de haver muita cousa na parede. Assim é que uma casa da rua do Senhor dos Passos tem este anuncio: Deposito de aves de pennas. É pouco? Um outro assegura: Deposito de gallinhas, ovos e outras aves de pennas - o que é, evidentemente, muito mais. Tal excesso chega a prejudicar, e andasse a hygiene a olhar taboletas, ofício de vadiagem incorrigivel, mandaria fechar uma casa de fructas da rua Sete, que pespegou esta inconveniencia: Grande sortimento de fructas verdes e seccas. A origem desses titulos é sempre curiosa. Uma casa chama-se Principe da Beira porque o seu proprietario é da Beira, uma venda de Campo Grande tem o titulo feroz de Grande Cabaceiro porque perto ha urna plantação de cabaças; ha açougue Alliança e Fidelidade porque é um habito pôr alliança como titulo com duas mãos apertadas e fidelidade com um cachorro de lingua de fóra, bem no meio da parede. Muitos tomam o titulo de peças de theatro: Colchoaria Rio Nu, Casa Guanabarina, venda Cabana do Pai Thomas. A cousa, porém, toma proporções assombrosas quando o proprietario é pernostico. Assim, na rua Visconde do Rio Branco ha um armazém Planeta Provisorio, e noutra rua Planeta dos Dous Destinos, um titulo ocultista sibilino; no Cattete, um Açougue Celestial. Essa dependência do firmamento na terra produz um péssimo efeito e os anjos têm cada braço de meter medo a uma legião da policia. Outro, porém, é o Açougue Despique dos Invejosos, e ha na rua da Constituição uma casa de bilhetes intitulada Casa Idealista, naturalmente porque quem compra bilhetes vive no mundo da lua, e ha uma casa de corôas, O Lirio Impermeavel e uma outra, Ao vulcão das 49 flores. Não é só. Uns madeireiros pozeram no seu deposito este letreiro philosophico, que naturalmente incomodará o arcebispado: Madeireiros e Materialistas; e ha uma taberna muito ordinaria, centro de malandrões, em Sapopemba, que se apossou de um titulo exclusivamente nephilebata: A Thebaida... E os afrancezados que denominam as casas de Au Bijou de la mode; Au Dernier Chic, Queima Chefe, Maison Moderne da Cidade Nova? E os patrioticos que fazem questão da casa de pasto ser 1º de Dezembro, do açougue ser 1º de Janeiro? do restaurante ser Luiz de Camões ou Fagundes Varella? E os engrossadores que intitulam as casas de Affonso Pena durante quatro annos? E os engraçados, os da laracha boa, que fazem as taboletas propositalmente erradas, como um negociante da rua Chile: Colxoaria de primera Colxães contra purgas e precevejos ? Mas as taboletas têm uma estranha philosophia; as taboletas fazem pensar. Ha, por exemplo, na rua Senador Euzebio, perto da ex-ponte dos Marinheiros, uma hospedaria com este titulo: Hotel Livre Cambio. Quanta cousa pensa a gente conhecendo o negocio e olhando a taboleta! A série é nesse ramo curiosissima. Ha o Locomotora, que é naturalmente rapido; ha Os Dois Destinos, ha a Lua de Prata, ha o ironico Fidelidade, tendo pintado uma senhora a pender dos labios de um senhor...Quantos! Na rua Dr. João Ricardo
ha um restaurante com este titulo: «Restauração da
Victoria»
All right, sim! Os títulos
das casas, por mais absurdos como «Filhos do Céo», por
exemplo,
Os pintores desse genero crearam
uma especialidade: são os moralistas da decadência e usam
tambem taboletas. Um mesmo, talvez por ter soffrido muito de cara alegre,
poz na rua de S. Pedro este anuncio: Fulano de Tal, Pintor de Fingimentos.
E realmente elles aturam tanto dos proprietarios! Um delles, rapazito inteligente,
era encarregado de fazer a fachada da Casa do Pinto. Fez as
letras e pintou um pintainho. O proprietario enfureceu:
E outro, encarregado de fazer
as letras de uma casa de moveis, já pintara vendem-se moveis
quando o negociante veiu a elle:
As letras custam dinheiro, custam aos pobres pintores... O rapaz ficou sem o m que fizera com tanta pericia. Mas tambem, por que estragar? Em S. Christovão havia uma Pharmacia S. Christovão. Desappareceu. Foi a primeira que fez isso na terra, desde que ha pharmacias. Foram para lá outros negociantes. Como aproveitar algumas letras? Lembraram foco, e, como a Academia não chega os seus cuidados orthographicos ás taboletas, arrumaram Phoco de S. Christovão. Estava uma taboleta nova só com tres letras novas. Os pintores de taboletas resignam-se. Elles, os escriptores desse grande livro colorido da cidade, têm a paciencia lendaria dos iluministas medievos, elles fazem parte da grande massa para que o Reclamo foi creado – são pobres. Talvez por isso, um mais ousado, de accordo com certo açougueiro antigo da praça da Aclamação, pintando uma vez o letreiro Açougue Pai dos Pobres, poz bem no meio uma cabeça de boi colossal, arregalando os olhos, que Homero achava bellos, como o symbolo de todas as resignações... E é de certo este o lado
mais triste das taboletas – brazões da democracia, escudos bizarros
da cidade.
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